Haveria uma Ciência Política pura ou a Política seria uma Arte?
Para Francisco Romão Ferreira, da
Fundação Oswaldo Cruz, enquanto a ciência "busca a redução às leis
universais, à padronização dos procedimentos metodológicos e o rigor lógico na
construção dos saberes, na tentativa de controlar o que é do seu domínio”,
a arte "produz sensações e modos abstratos de pensamento que escapam aos
domínios da racionalidade ou da lógica”. Não faltam teóricos a afirmar que há
uma Ciência Política, mas ela não poderia ser vista como uma ciência pura; para
esses, como é o caso de Dalmo de Abreu Dallari, ela seria a conjugação de
saberes da Teoria Geral do Estado, do Direito Constitucional e da Sociologia, analisando
o passado para prospectar o futuro de uma sociedade.
Já a prática da ação política,
própria dos "atores políticos”, se mostra como uma combinação mais complexa,
buscando a definição de políticas públicas, limitada para dentro das balizas do
Direito, e voltada à composição dos interesses definidos por cada indivíduo e
grupos de indivíduos que se contrapõem, a partir de suas próprias visões de
mundo.
Postas essas premissas, pode-se
especular que a ação política, apesar de sofrer limitações da ciência, se
orienta mais pela arte, porque "produz sensações e modos abstratos de
pensamento que escapam aos domínios da racionalidade ou da lógica”; a única
lógica na política seria o objetivo de um possível consenso negociado e aceito entre
os contraditórios.
É recorrente dizer-se que no
Brasil os partidos políticos não representam uma ideologia, mas isso não é uma
verdade absoluta. Veja-se que, desde a divisão do mundo entre o modelo
capitalista defendido por Carl Schmitt e o modelo do socialismo objetivando o
comunismo proposto por Karl Marx, os ditos partidos "progressistas” (esquerda) ganharam
identidade e força, talvez porque historicamente se mostraram em todo o mundo como
oposição ao establishment (elite social, econômica e política de um país,
que impõe um modelo de Estado); atente-se que também, quando esses ditos
"progressistas” conquistam o poder, passam a condição de establishment (ainda
que um "novo establishment”) e a reação logo virá do "antigo establishment”
(conservadores), num movimento nitidamente pendular.
O sistema político em todo o
mundo civilizado democrático (Estados Unidos da América e Espaço Europeu) opera
dentro dessa "arte”, e isso se evidencia quando a política recorre ao marketing
político; nesse espaço, segundo o cientista político Rubens Figueiredo, lança-se
mão desse conjunto de processos, que envolvem a criação, a comunicação e a
difusão de um estoque de valores e significados sociais, para a persuasão do
público. Comunicar o que o "consumidor” (eleitor; cidadão) deseja é a máxima
desse processo, daí porque seria temerário confiar na consistência dessa
comunicação (e não me refiro aqui às Fake News tão somente, mas também
às meias verdades).
São fatos inafastáveis, em
qualquer sociedade, que indivíduos tenham visões distintas de mundo e, assim,
nem todos os ditos progressistas seriam progressistas em todos os temas da vida
em sociedade e tampouco cultuariam homogeneamente os mesmos valores éticos;
assim também, não em tudo convergem as visões dos ditos conservadores. Seres
humanos são indivíduos únicos e os grupos opostos, de tempos em tempos se
fortalecem, conquistam o poder e depois o perdem, no inverso movimento daquele
que perdeu o poder, e voltará a se fortalecer para o recuperar.
É esse fenômeno que estamos tendo
o privilégio de viver nestas duas últimas décadas no Brasil, desde a ascensão
dos ditos partidos de esquerda até sua queda com o ressurgimento daqueles que
se intitulam conservadores. E não se trata de uma questão que se estabelece tão
somente numa "pauta de costumes”, mas numa pauta de valores e visão de mundo; a
difusão e a imposição opressora de pautas "progressistas” pelas elites da
comunicação social, das artes e da academia ao longo dessas duas décadas chegou
a tal ponto, que fez renascer a voz dos que se autoproclamam "conservadores”. E
aqui não se coloca a questão de uma forma maniqueísta (bem e mal), mas
simplesmente como um fenômeno de natural fluxo e refluxo do poder a partir das
visões de mundo.
Assim, na arte da política, não
há bem ou mal a serem apontados, quiçá nem quando ela recorre ao marketing
político ou mesmo quando emprega o populismo, senão quando ocorrem processos de
supressão da liberdade política, seja pela ditadura seja pela abdução de mentes
e votos na formação dos "currais eleitorais”, bem descritos na obra de Rodolpho
Telarolli (Eleições e fraudes eleitorais na República Velha, publicada
em 1982).
Mesmo que nada possa explicar o
porquê de alguém optar por ser corintiano ou palmeirense (flamenguista ou
fluminense etc.), não se pode culpá-lo por essa escolha... Nem tudo que
aparenta ser bom para uns é tido assim para outros; tudo porque, na Arte da
Política, o que se produz são "sensações e modos abstratos de pensamento que
escapam aos domínios da racionalidade ou da lógica”, a que o marketing
político tenta emprestar um toque de lógica.