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Advogado, Professor Universitário e Jornalista
Autor: Azor Lopes da Silva Júnior
Advogado, Professor Universitário e Jornalista

Política: Arte ou Ciência

Autor: Azor Lopes da Silva Júnior
13/10/2022 às 10:25
Artigos

Haveria uma Ciência Política pura ou a Política seria uma Arte?


Para Francisco Romão Ferreira, da Fundação Oswaldo Cruz, enquanto a ciência "busca a redução às leis universais, à padronização dos procedimentos metodológicos e o rigor lógico na construção dos saberes, na tentativa de controlar o que é do seu domínio”, a arte "produz sensações e modos abstratos de pensamento que escapam aos domínios da racionalidade ou da lógica”. Não faltam teóricos a afirmar que há uma Ciência Política, mas ela não poderia ser vista como uma ciência pura; para esses, como é o caso de Dalmo de Abreu Dallari, ela seria a conjugação de saberes da Teoria Geral do Estado, do Direito Constitucional e da Sociologia, analisando o passado para prospectar o futuro de uma sociedade.

Já a prática da ação política, própria dos "atores políticos”, se mostra como uma combinação mais complexa, buscando a definição de políticas públicas, limitada para dentro das balizas do Direito, e voltada à composição dos interesses definidos por cada indivíduo e grupos de indivíduos que se contrapõem, a partir de suas próprias visões de mundo.

Postas essas premissas, pode-se especular que a ação política, apesar de sofrer limitações da ciência, se orienta mais pela arte, porque "produz sensações e modos abstratos de pensamento que escapam aos domínios da racionalidade ou da lógica”; a única lógica na política seria o objetivo de um possível consenso negociado e aceito entre os contraditórios.

É recorrente dizer-se que no Brasil os partidos políticos não representam uma ideologia, mas isso não é uma verdade absoluta. Veja-se que, desde a divisão do mundo entre o modelo capitalista defendido por Carl Schmitt e o modelo do socialismo objetivando o comunismo proposto por Karl Marx, os ditos partidos "progressistas” (esquerda) ganharam identidade e força, talvez porque historicamente se mostraram em todo o mundo como oposição ao establishment (elite social, econômica e política de um país, que impõe um modelo de Estado); atente-se que também, quando esses ditos "progressistas” conquistam o poder, passam a condição de establishment (ainda que um "novo establishment”) e a reação logo virá do "antigo establishment” (conservadores), num movimento nitidamente pendular.

O sistema político em todo o mundo civilizado democrático (Estados Unidos da América e Espaço Europeu) opera dentro dessa "arte”, e isso se evidencia quando a política recorre ao marketing político; nesse espaço, segundo o cientista político Rubens Figueiredo, lança-se mão desse conjunto de processos, que envolvem a criação, a comunicação e a difusão de um estoque de valores e significados sociais, para a persuasão do público. Comunicar o que o "consumidor” (eleitor; cidadão) deseja é a máxima desse processo, daí porque seria temerário confiar na consistência dessa comunicação (e não me refiro aqui às Fake News tão somente, mas também às meias verdades).

São fatos inafastáveis, em qualquer sociedade, que indivíduos tenham visões distintas de mundo e, assim, nem todos os ditos progressistas seriam progressistas em todos os temas da vida em sociedade e tampouco cultuariam homogeneamente os mesmos valores éticos; assim também, não em tudo convergem as visões dos ditos conservadores. Seres humanos são indivíduos únicos e os grupos opostos, de tempos em tempos se fortalecem, conquistam o poder e depois o perdem, no inverso movimento daquele que perdeu o poder, e voltará a se fortalecer para o recuperar.

É esse fenômeno que estamos tendo o privilégio de viver nestas duas últimas décadas no Brasil, desde a ascensão dos ditos partidos de esquerda até sua queda com o ressurgimento daqueles que se intitulam conservadores. E não se trata de uma questão que se estabelece tão somente numa "pauta de costumes”, mas numa pauta de valores e visão de mundo; a difusão e a imposição opressora de pautas "progressistas” pelas elites da comunicação social, das artes e da academia ao longo dessas duas décadas chegou a tal ponto, que fez renascer a voz dos que se autoproclamam "conservadores”. E aqui não se coloca a questão de uma forma maniqueísta (bem e mal), mas simplesmente como um fenômeno de natural fluxo e refluxo do poder a partir das visões de mundo.

Assim, na arte da política, não há bem ou mal a serem apontados, quiçá nem quando ela recorre ao marketing político ou mesmo quando emprega o populismo, senão quando ocorrem processos de supressão da liberdade política, seja pela ditadura seja pela abdução de mentes e votos na formação dos "currais eleitorais”, bem descritos na obra de Rodolpho Telarolli (Eleições e fraudes eleitorais na República Velha, publicada em 1982).

Mesmo que nada possa explicar o porquê de alguém optar por ser corintiano ou palmeirense (flamenguista ou fluminense etc.), não se pode culpá-lo por essa escolha... Nem tudo que aparenta ser bom para uns é tido assim para outros; tudo porque, na Arte da Política, o que se produz são "sensações e modos abstratos de pensamento que escapam aos domínios da racionalidade ou da lógica”, a que o marketing político tenta emprestar um toque de lógica.







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