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 Professora da UNESP, conselheira do Conselho Afro Municipal e membra do Coletivo de Intelectuais Negras e Negros – CDINN e Mulheres na Política
Autor: Monica Abranches Galindo
Professora da UNESP, conselheira do Conselho Afro Municipal e membra do Coletivo de Intelectuais Negras e Negros – CDINN e Mulheres na Política

Atrás do banheiro

Autor: Monica Abranches Galindo
31/08/2022 às 10:37
Artigos

Finda-se o mês de agosto que tem a fama de ser muito longo e já foi chamado também de mês de cachorro louco. Na onda mais moderna de cada mês ter uma cor, agosto é lilás, mês de combate à violência contra a mulher, porque em agosto de 2006 foi promulgada a Lei Maria da Penha


A violência contra a mulher é uma violência de gênero porque não estamos falando de uma violência genérica sofrida pelas mulheres, mas uma violência que se concretiza pelo fato de sermos mulheres e vivermos em uma sociedade machista, ou seja, uma sociedade na qual aquilo que se refere aos homens e sistematicamente mais valorizado.

Quando falamos de gênero é comum pensarmos em orientação sexual – por exemplo, se a pessoa é homossexual, bissexual ou heterossexual - e identidade sexual – se a pessoa é trans ou cis, mas gênero refere-se, de maneira mais ampla, à construção social que fazemos a partir de uma diferença biológica. Nesse sentido, pensar em gênero é falar sobre feminicidio, diferenças de salários entre homens e mulheres, violência contra pessoas trans, violência obstétrica ou sobre a violência que impomos aos meninos ao proibirmos que eles possam chorar – todo homem já ouviu que "homem não chora” porque é homem. Tudo isso são exemplos de violências relacionadas ao gênero. Violências de gênero. Gênero.

Em Rio Preto, os vereadores votaram a proibição do que foi chamado de banheiro "multi-gênero” e um dos argumentos para essa proibição relaciona-se ao que chamam de ideologia de gênero. Sim, precisamos falar sobre gênero. E gênero não é invenção, ele está presente nas nossas vidas cotidianas. Quando em uma loja você vê os brinquedos separados entre o que são brinquedos de menina e de menino isso é um recorte de gênero. Se você vai comprar uma roupa de bebê e só encontra azul ou rosa, isso também é. A divisão de nossos banheiros por sexo, mesmo quando as cabines são totalmente individuais e as portas ficam trancadas é também uma questão de gênero sobre as quais precisamos pensar.  

Se ficássemos só nas cores de roupas ou nos banheiros dos estabelecimentos comerciais, entendo que não estaríamos com problemas tão graves. O problema é que atrás da discussão sobre o banheiro e as cores encontra-se a ideia de que não se pode aceitar ou conviver com a diversidade que é característica básica do ser humano. As crianças gostam de brincar com uma diversidade de brinquedos. Temos diversidade de culturas, das formas de falar, das formas de viver. Diversidade de cabelos, de cores de pele, de roupas, de cantos, de gostos musicais. Diversidade religiosa, das formas de cultuar, de crer, das formas de se relacionar com as divindades e com o divino. Diversidade de identidades e orientações sexuais, das formas de se manifestar em termos de gênero, das formas de amar, de desejar e de se relacionar.  

No mês de agosto, no nosso estado, tivemos o caso do suicídio de um rapaz trans. No Espírito Santo, uma vereadora trans foi sequestrada dentro de sua casa por homens armados. Meninos e meninas trans tem sido expulsas das nossas escolas pelas dificuldades que lhes são impostas porque querem utilizar os nomes com os quais se identificam e precisam utilizar os banheiros da escola que é deles.

Na base, atrás e além da discussão sobre banheiros estão suicídios, sequestros, negação de direitos, mortes, violências. Atrás do banheiro está a dificuldade de ver a diversidade de todos nós, humanos. E diversidade é vantagem, não precisa nos assustar. 







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