Finda-se o mês de agosto que tem a fama de ser muito longo e já foi chamado também de mês de cachorro louco. Na onda mais moderna de cada mês ter uma cor, agosto é lilás, mês de combate à violência contra a mulher, porque em agosto de 2006 foi promulgada a Lei Maria da Penha
A violência contra a
mulher é uma violência de gênero porque não estamos falando de uma violência
genérica sofrida pelas mulheres, mas uma violência que se concretiza pelo fato
de sermos mulheres e vivermos em uma sociedade machista, ou seja, uma sociedade
na qual aquilo que se refere aos homens e sistematicamente mais valorizado.
Quando falamos de
gênero é comum pensarmos em orientação sexual – por exemplo, se a pessoa é
homossexual, bissexual ou heterossexual - e identidade sexual – se a pessoa é
trans ou cis, mas gênero refere-se, de maneira mais ampla, à construção social
que fazemos a partir de uma diferença biológica. Nesse sentido, pensar em
gênero é falar sobre feminicidio, diferenças de salários entre homens e
mulheres, violência contra pessoas trans, violência obstétrica ou sobre a
violência que impomos aos meninos ao proibirmos que eles possam chorar – todo
homem já ouviu que "homem não chora” porque é homem. Tudo isso são exemplos de
violências relacionadas ao gênero. Violências de gênero. Gênero.
Em Rio Preto, os vereadores
votaram a proibição do que foi chamado de banheiro "multi-gênero” e um dos
argumentos para essa proibição relaciona-se ao que chamam de ideologia de gênero.
Sim, precisamos falar sobre gênero. E gênero não é invenção, ele está presente
nas nossas vidas cotidianas. Quando em uma loja você vê os brinquedos separados
entre o que são brinquedos de menina e de menino isso é um recorte de gênero.
Se você vai comprar uma roupa de bebê e só encontra azul ou rosa, isso também
é. A divisão de nossos banheiros por sexo, mesmo quando as cabines são
totalmente individuais e as portas ficam trancadas é também uma questão de
gênero sobre as quais precisamos pensar.
Se ficássemos só nas
cores de roupas ou nos banheiros dos estabelecimentos comerciais, entendo que
não estaríamos com problemas tão graves. O problema é que atrás da discussão
sobre o banheiro e as cores encontra-se a ideia de que não se pode aceitar ou
conviver com a diversidade que é característica básica do ser humano. As
crianças gostam de brincar com uma diversidade de brinquedos. Temos diversidade
de culturas, das formas de falar, das formas de viver. Diversidade de cabelos,
de cores de pele, de roupas, de cantos, de gostos musicais. Diversidade
religiosa, das formas de cultuar, de crer, das formas de se relacionar com as
divindades e com o divino. Diversidade de identidades e orientações sexuais,
das formas de se manifestar em termos de gênero, das formas de amar, de desejar
e de se relacionar.
No mês de agosto, no
nosso estado, tivemos o caso do suicídio de um rapaz trans. No Espírito Santo,
uma vereadora trans foi sequestrada dentro de sua casa por homens armados. Meninos
e meninas trans tem sido expulsas das nossas escolas pelas dificuldades que
lhes são impostas porque querem utilizar os nomes com os quais se identificam e
precisam utilizar os banheiros da escola que é deles.
Na base, atrás e
além da discussão sobre banheiros estão suicídios, sequestros, negação de
direitos, mortes, violências. Atrás do banheiro está a dificuldade de ver a
diversidade de todos nós, humanos. E diversidade é vantagem, não precisa nos
assustar.